22.12.08

Sobre infância e liberdade (I)

Da série: "Todas as cartas de amor são ridículas".


Querido G.,

Ontem a noite na festa em que você não pôde estar presente, lá pelas tantas, falamos muito de AMOR.

Amor como uma forma genuina de troca de energia, emoção. Amor como sentimento, como palavra, como asa, como permissão para discordar, mas não desrespeitar.

M. falou que a minha idéia do que era amor, para ele poderia ser traduzida como carinho e que amor era uma coisa diferente. Que a gente amava quase sempre, por essência, esperando algo em troca, mas eu discordei dele e tenho convicção de que as coisas muitas vezes funcionam como funcionam por causa de apenas isso: DO AMOR.

E eu falei também em como o amor era ridículo no bom sentido da palavra e que só quando a gente ama a gente se permite ser ridículo, sem máscaras, sem "quais quais quais", sem uma porrada de coisa que a gente constrói em volta do nosso umbigo, entende?

Então, é por isso que me deu vontade de dividir isso com você, porque você não tava lá e eu queria que você estivesse. Porque você é uma das poucas pessoas que me fazem falta na vida, falta assim para conversar, ouvir, olhar. Falta assim nesta forma ridícula de amor amigo, genuino.

De amar por amar de forma natural e gratuita. Um amor assim leve que como folha de papel voa em direção ao outro e, por isso que eu, agora, com minhas próprias asas estou chegando perto de ti através deste e-mail que nasceu da vontade de ser criança de novo e ter crescido contigo, dividido adolescências e de ter recebido ponta-pés nos jogos de pelada quando eu me metia no meio, porque eu queria experimentar a sensação de ser menino, e você gritava: Sai daí Sachêt!!! você vai machucar os joelhos.

Senti saudade das vezes que eu te implorei para brincar de boneca comigo e você levou o castelo do He-man e o esqueleto para a minha casa e a gente virou o meu quarto do avesso enquanto você atirava raios para exterminar toda a minha coleção de "Querido Pônei". Lembra que a vovó entrou no quarto e deu uma bronca na gente e depois levou na bandeja bolo de chocolate e suco?

Senti hoje saudade de todas as fotos perdidas e da nossa viagem para a Disney. Eu tinha 10 anos e queria ver o "gato da Alice" e a "Cinderela" e você já estava com 16, mais interessado nas garotas da excursão e lá você comprou a sua primeira câmera de filmar e carregava aquele trambolho para tudo quanto era lado e filmava as meninas. E, eu lá, comprando bonecos de pelúcia e chicletes me senti à margem de você, mas mesmo assim, faziamos guerrinha de ketchup e mostarda na lanchonete e ríamos muito. Essa era a única hora em que você se permitia ser criança como eu. Você ainda guarda aquele dragaozinho de pelúcia que eu te dei?

Lembra que mamãe deu todo o meu dinheiro para você e pediu para que você só me desse 20 dólares por dia e você me devolveu todo o dinheiro no avião e deixou que eu gastasse do jeito que eu quisesse porque confiava em mim? - então... essa nossa amizade é tão duradoura e extensa que mesmo que a vida nos guie por caminhos diametralmente opostos, estaremos sempre juntos em pensamento, em essência, em alma.

Mesmo que a vida nos afaste e nos dê sustos a gente pode lembrar sempre das festas americanas, dos discos de vinil e das cartas trocadas. Das viagens para o sítio e daquele tombo de cavalo que eu levei.

Você ficou acordado a noite toda do meu lado falando sem parar para que eu não dormisse. Você suava e estava tão nervoso... e segurava a minha mão e falava : Sachêt, não dorme. E quando eu ameaçava fechar os olhos você virava para mim e dizia: -Ai q vontade de te bater!!! - e, eu repetia: -De mão aberta para não deixar marcas!!! - essa era nossa brincadeira secreta - e eu fiquei um mês de cama com o fêmur quebrado e você ia me visitar todos os dias e até faltava o inglês algumas vezes. E você me levava chocolates e a gente ria a beça juntos e foi ali que eu comecei a escrever e a pensar em ser escritora e você me estimulou, aliás, foi meu primeiro fã e logo depois vc foi morar nos EUA e eu senti tanto a sua falta...

As cartas demoravam a chegar e às vezes eram extraviadas, mas a gente sempre dava um jeito falar ao telefone.

E quando eu morei em Londres você foi me encontrar lá. Você ouvia reggae e eu na fase punk e a gente resolveu não ouvir mais música quando estivéssemos juntos para não brigar? - e aí a gente foi ao parque de Diversões e você segurou a minha mão na roda-gigante enquanto eu tremia de medo e chorava. Tempo bom, aquele...

Aí, logo depois que você voltou eu também voltei e você ganhou seu primeiro carro, ele estava com plástico nos bancos ainda e eu fui a segunda pessoa a andar nele, porque a primeira foi a sua mãe e a gente foi até a Barra e voltou em menos de 20 minutos e depois a gente foi ao cinema? - e quando eu casei que você me ajudou a escolher os móveis e me deu aquele par de cachorros azuis franceses de porcelana que você comprou no antiquário e escreveu no cartão: "É um presente meio brega, mas já que vc pediu... aí vai." - e eu sempre namorei aqueles cachorros, lembra que eu falava deles desde quando mamãe foi a Paris e trouxe um par para ela? - e eu falava que quando tivesse a minha casa eu ia querer um par daqueles e você ... não sei como, depois de tantos anos lembrou disso e me deu de presente!

Que memória. Quantas coisas para lembrar. RELEMBRAR...

Ser ESPECIAL é LUXO de poucas pessoas e você é uma delas, meu amigo de infância, meu irmão de alma, meu querido G.

Sem mais...

Beijos e muitas mas muitas felicidades mesmo,

S.


(*) Isto é uma obra de ficção, mas representa a verdade.

(*)Todos os nomes foram substituidos por letras que podem ser as iniciais verdadeiras de cada participante ou não, para que a identidade de cada indivíduo ridículo que ama genuinamente fosse preservada, pois há muito poucas pessoas assim neste mundo e talvez eles sejam todos de outro planeta e estejam fazendo pesquisa de campo no Brasil.

I Didn't Know I Was Looking For Love Lyrics - Everything But The Girl

I was alone thinking I was just fine
I wasn't looking for anyone to be mine
I thought love was just a fabrication
A train that wouldn't stop at my station
Home, alone, that was my consignment
Solitary confinement
So when we met I was SKIRTING around you
I didn't know I was looking for love
Until I found you

I didn't know I was looking for love
Until I found you, honey
I didn't know I was looking for love
Until I found you, baby
Didn't know I was looking for love
Didn't know I was looking for love

Cause there you stood and I would
Oh I wonder could I say how I felt
And not be misunderstood
A thousand stars came into my system
I never knew how much I had missed them
Slap on the map of my heart you landed
I was coy but you made me candid
And now the planets circle around you
I didn't know I was looking for love
Until I found you

I didn't know I was looking for love
Until I found you, baby
I didn't know I was looking for love
Until I found you, baby
Didn't know I was looking for love
Didn't know I was looking for love

So we built from here with love the foundation
In a world of tears, one consolation
Now you're here, there's a full brass band
Playing in me like a wonderland
And if you left I would be two-foot small
And every tear would be a waterfall
Soundless, boundless, I surround you
I didn't know I was looking for love
Until I found you

I just didn't know

Until I found you...

sobre escaladas e maremotos (I)


"...where i can go, when I'm alone...
in to your arms I can go."
Lemonheads

estar fixada em seus braços
alguns braços
outros, certos, tortos,
fortes braços.

braços que me tocam
que entortam que não vejo
que imagino

braços que podem ser seus,
dele, deles, dos outros
meus

braços que atravessam paredes e telas
quadros, gravuras, espaços vazios

braços que pedem respostas
perguntam
perfuram a minha pele
e seguram a minha cabeça na hora de dormir.

braços que são seus, meus e não deles,
delas, dos outros

braços que me invadem e furam
braços que perfuram meu interior
e carregam mãos e dez dedos
borrifando meu cheiro
pelas esquinas

braços e mãos e dedos
que espalham
olhares e tatuagens

e proclamam o nosso amor
ferido
bandido, banido, torto, desmedido
e nossa paixão irracível, incessante
e "band-aid"
dentro de caixinhas, de papelão colorido,
feitas com cartões postais
distribuidos gratuitamente
por aí.

19.12.08

“O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada. O tempo apenas tira o incurável do centro das atenções.

Litoral - Ana C.

meu amor escapa outra vez pela
fenda calada do verso a voz
fraca sobre a curva naufraga
ondas mornas imóveis
meu amor escapa esta superfície
irrespirável enreda
o vôo o movimento
inverso não mais teus ossos
águas sem sopro onde uma
temporada apenas
neste inferno

sobre crime e castigo (IV)

(olhares.com)


você surfa e o risco de tomar um caldo é que você assume

o preço de se espatifar contra as pedras,
de bater nos corais,
de tomar um caldo
e ralar a barriga e os joelhos
é você quem paga

eu; não tenho nada com isso.

eu quero cantar uma música chiclete
que vai grudar nos seus ouvidos
e sair por aí
comendo vegetais
desejando procriar como uma selvagem no meio da floresta
achando tudo doce
certa de que a miséria não há de se instalar
nessa vida minha
que grita “vocês” a cada dobrar de esquina

eu quero pensar que a vida
é uma carona e uma conversa

um "hapenning" sem dar de cara com quem desgostamos
sem enfiarmos pela goela uma doença de não dizer
sem pensar que o fim está próximo
porque ele não está.

a vida é um postar-se pleno
é um peixe que a gente mata
e consome como alimento
um riso histérico que se ouve da menina na mesa ao lado
que quer conquistar um "borra-botas"
coitada...
ela não sabe que ele é um "borra-botas"

nós nunca sabemos quando ele é um "borra-botas",
mas sempre caímos em suas falácias
em sua lábia

no abismo!

18.12.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (VI)

(olhares.com)


era uma palavra triste

tão tristonha que nem sei...


morava num lugar longe

quase não tinha vizinhos

e chorava sozinha..


o coração apertado por um jeans skinny

soltava olhares de raio

e fazia muita força para bater

quase explodindo naquele corpo

espremido naquele zíper


e ela; a palavra triste,

triste de dar dó

a palavra nó na garganta.


palavra solidão

escondida na tristeza do não ter.


a palavra choro

camuflada na lágrima da tempestade

no olho do furacão.

na falta de sorte,


a palavra soluço

fantasiada de versos de amor


a palavra dor

cheia de botox na cara

tentando mentir a idade


a palavra saudade.


quanta saudade a tal da palavra deve sentir

dos entes queridos,

do amor esquecido,

das noites,

dos sorrisos em volta da mesa

das apostas perdidas

das molas tortas naquele colchão


da palavra tesão.


que sempre quando perto

acendia fósforos incendiando tudo


e a palavra triste

tristonha

na casa quase sem vida

escondida nos escombros do que imaginou ser ou ter;

tanto faz.


uma palavra perdida

só, triste, sem vida

sem cor, gosto, sabor.


uma palavra mascarada como o pierrôt que esqueceu

a colombina no baile de carnaval.


uma palavra que chora

um amor que pede esmola

e uma dor que não demora

para cavar um buraco bem fundo

fundo mesmo, muito fundo

no meio do labirinto que a ausência

desenhou dentro de mim.

15.12.08

Quando eu deixar de te amar, por Juliana Hollanda

"...

eu vou maldizer todos os dias de sol e as noites de lua cheia e os casais andando de mãos dadas passeando no parque dividindo um sorvete de casquinha. eu vou ter deixado de te amar e nada mais vai fazer sentido; só o meu vestido lilás sujo de terra, meus pés enlameados e as lágrimas que não vou mais chorar."


Tá lá no FALÓPIO.

POEMA COLETIVO

Por: Fernando Klipel, Beatriz Provasi, Juliana Hollanda e Ricardo Ruiz


Para mais do que me fez diminuir,

Em teus pés, fraquejo agora. Sorrindo. Pedindo um olhar. Um sopro qualquer que me faça um dia parar de existir.


Insisto. Às vezes pareço perder a força, mas não é nada. É um respiro. Um traço. Um fôlego novo para continuar vivendo “apesar de”; como Clarice.


Não me preocupo em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento

Amor é um eterno entender-se

É um eterno não saber

Amor é um remar de dentro

Por dentro

Para dentro

Mesmo que a gente, mês que sem querer chegue às vias de fato

E também saiba o que é poesia.


O caolho Camões falou

"Amor é um fogo que arde sem arder"

Fogo é fogo! Água é água!

Não há dúvidas

Os elementos circulam e seguem. Prosseguem

E a inércia? Como é que fica?


Não fica meu bem, adquire asas, voa e pousa por aí. Sempre querendo arder a mordida desaguada do semelhante.

Flutua, paira. Repete cada giro.

Observa sempre. Deseja arder querendo um dia parar. Pensar na pedra e chorar dura, sem volta, em voltas. Pairando.


10.12.08

sobre crime e castigo (III)

(olhares.com)


eles têm cheiro de nicotina, perfume e excessos.
um cheiro que gruda na pele e deixa-se levar
pela música e pela necessidade que têm de ser livres
os dois

ela não sabe dela enquanto mulher que sente frio e se despe
desnuda
ela sente-se tão menos do que deveria verdadeiramente sentir

mulher que ali
na precisão de un instante pensa no que foi e passou
do que existe deste cheiro que grudou em sua pele, rosto e nuca
no cheiro dela e no gosto dele
no gosto dela na boca dele

do que ela sente,
do que eles são
do que eles são quando ou enquanto dormem
do que deixam de ser

ela espera que ele tenha dormido em paz
dentro daquele sonho que ela pôde segurar
longe do que ela pode vir a se tornar
perto do que ainda não foi.

Sobre sapatos e fome (IV)

(olhares.com)

desesperada era ela, a mal amada
amálgama a fragmentar sofrimentos.

sentimentos idiotas de alguém que deixou os sapatos para fora do armário.
desconfianças e elocubrações de um traficante preso na gaiola;
trancafiado
trancado à sete chaves.

pensamentos desesperados
despertar de um pesadelo com um copo de coca-cola nas mãos
o cair de um abismo
o passo não dado e os passarinhos a piar verdades no meio de um nada

a morte
a vida
a morte
a vida
a morte
a vida
convivem.

9.12.08

i´ve been loving you too long to stop now

8.12.08