22.12.08

Sobre infância e liberdade (I)

Da série: "Todas as cartas de amor são ridículas".


Querido G.,

Ontem a noite na festa em que você não pôde estar presente, lá pelas tantas, falamos muito de AMOR.

Amor como uma forma genuina de troca de energia, emoção. Amor como sentimento, como palavra, como asa, como permissão para discordar, mas não desrespeitar.

M. falou que a minha idéia do que era amor, para ele poderia ser traduzida como carinho e que amor era uma coisa diferente. Que a gente amava quase sempre, por essência, esperando algo em troca, mas eu discordei dele e tenho convicção de que as coisas muitas vezes funcionam como funcionam por causa de apenas isso: DO AMOR.

E eu falei também em como o amor era ridículo no bom sentido da palavra e que só quando a gente ama a gente se permite ser ridículo, sem máscaras, sem "quais quais quais", sem uma porrada de coisa que a gente constrói em volta do nosso umbigo, entende?

Então, é por isso que me deu vontade de dividir isso com você, porque você não tava lá e eu queria que você estivesse. Porque você é uma das poucas pessoas que me fazem falta na vida, falta assim para conversar, ouvir, olhar. Falta assim nesta forma ridícula de amor amigo, genuino.

De amar por amar de forma natural e gratuita. Um amor assim leve que como folha de papel voa em direção ao outro e, por isso que eu, agora, com minhas próprias asas estou chegando perto de ti através deste e-mail que nasceu da vontade de ser criança de novo e ter crescido contigo, dividido adolescências e de ter recebido ponta-pés nos jogos de pelada quando eu me metia no meio, porque eu queria experimentar a sensação de ser menino, e você gritava: Sai daí Sachêt!!! você vai machucar os joelhos.

Senti saudade das vezes que eu te implorei para brincar de boneca comigo e você levou o castelo do He-man e o esqueleto para a minha casa e a gente virou o meu quarto do avesso enquanto você atirava raios para exterminar toda a minha coleção de "Querido Pônei". Lembra que a vovó entrou no quarto e deu uma bronca na gente e depois levou na bandeja bolo de chocolate e suco?

Senti hoje saudade de todas as fotos perdidas e da nossa viagem para a Disney. Eu tinha 10 anos e queria ver o "gato da Alice" e a "Cinderela" e você já estava com 16, mais interessado nas garotas da excursão e lá você comprou a sua primeira câmera de filmar e carregava aquele trambolho para tudo quanto era lado e filmava as meninas. E, eu lá, comprando bonecos de pelúcia e chicletes me senti à margem de você, mas mesmo assim, faziamos guerrinha de ketchup e mostarda na lanchonete e ríamos muito. Essa era a única hora em que você se permitia ser criança como eu. Você ainda guarda aquele dragaozinho de pelúcia que eu te dei?

Lembra que mamãe deu todo o meu dinheiro para você e pediu para que você só me desse 20 dólares por dia e você me devolveu todo o dinheiro no avião e deixou que eu gastasse do jeito que eu quisesse porque confiava em mim? - então... essa nossa amizade é tão duradoura e extensa que mesmo que a vida nos guie por caminhos diametralmente opostos, estaremos sempre juntos em pensamento, em essência, em alma.

Mesmo que a vida nos afaste e nos dê sustos a gente pode lembrar sempre das festas americanas, dos discos de vinil e das cartas trocadas. Das viagens para o sítio e daquele tombo de cavalo que eu levei.

Você ficou acordado a noite toda do meu lado falando sem parar para que eu não dormisse. Você suava e estava tão nervoso... e segurava a minha mão e falava : Sachêt, não dorme. E quando eu ameaçava fechar os olhos você virava para mim e dizia: -Ai q vontade de te bater!!! - e, eu repetia: -De mão aberta para não deixar marcas!!! - essa era nossa brincadeira secreta - e eu fiquei um mês de cama com o fêmur quebrado e você ia me visitar todos os dias e até faltava o inglês algumas vezes. E você me levava chocolates e a gente ria a beça juntos e foi ali que eu comecei a escrever e a pensar em ser escritora e você me estimulou, aliás, foi meu primeiro fã e logo depois vc foi morar nos EUA e eu senti tanto a sua falta...

As cartas demoravam a chegar e às vezes eram extraviadas, mas a gente sempre dava um jeito falar ao telefone.

E quando eu morei em Londres você foi me encontrar lá. Você ouvia reggae e eu na fase punk e a gente resolveu não ouvir mais música quando estivéssemos juntos para não brigar? - e aí a gente foi ao parque de Diversões e você segurou a minha mão na roda-gigante enquanto eu tremia de medo e chorava. Tempo bom, aquele...

Aí, logo depois que você voltou eu também voltei e você ganhou seu primeiro carro, ele estava com plástico nos bancos ainda e eu fui a segunda pessoa a andar nele, porque a primeira foi a sua mãe e a gente foi até a Barra e voltou em menos de 20 minutos e depois a gente foi ao cinema? - e quando eu casei que você me ajudou a escolher os móveis e me deu aquele par de cachorros azuis franceses de porcelana que você comprou no antiquário e escreveu no cartão: "É um presente meio brega, mas já que vc pediu... aí vai." - e eu sempre namorei aqueles cachorros, lembra que eu falava deles desde quando mamãe foi a Paris e trouxe um par para ela? - e eu falava que quando tivesse a minha casa eu ia querer um par daqueles e você ... não sei como, depois de tantos anos lembrou disso e me deu de presente!

Que memória. Quantas coisas para lembrar. RELEMBRAR...

Ser ESPECIAL é LUXO de poucas pessoas e você é uma delas, meu amigo de infância, meu irmão de alma, meu querido G.

Sem mais...

Beijos e muitas mas muitas felicidades mesmo,

S.


(*) Isto é uma obra de ficção, mas representa a verdade.

(*)Todos os nomes foram substituidos por letras que podem ser as iniciais verdadeiras de cada participante ou não, para que a identidade de cada indivíduo ridículo que ama genuinamente fosse preservada, pois há muito poucas pessoas assim neste mundo e talvez eles sejam todos de outro planeta e estejam fazendo pesquisa de campo no Brasil.

I Didn't Know I Was Looking For Love Lyrics - Everything But The Girl

I was alone thinking I was just fine
I wasn't looking for anyone to be mine
I thought love was just a fabrication
A train that wouldn't stop at my station
Home, alone, that was my consignment
Solitary confinement
So when we met I was SKIRTING around you
I didn't know I was looking for love
Until I found you

I didn't know I was looking for love
Until I found you, honey
I didn't know I was looking for love
Until I found you, baby
Didn't know I was looking for love
Didn't know I was looking for love

Cause there you stood and I would
Oh I wonder could I say how I felt
And not be misunderstood
A thousand stars came into my system
I never knew how much I had missed them
Slap on the map of my heart you landed
I was coy but you made me candid
And now the planets circle around you
I didn't know I was looking for love
Until I found you

I didn't know I was looking for love
Until I found you, baby
I didn't know I was looking for love
Until I found you, baby
Didn't know I was looking for love
Didn't know I was looking for love

So we built from here with love the foundation
In a world of tears, one consolation
Now you're here, there's a full brass band
Playing in me like a wonderland
And if you left I would be two-foot small
And every tear would be a waterfall
Soundless, boundless, I surround you
I didn't know I was looking for love
Until I found you

I just didn't know

Until I found you...

sobre escaladas e maremotos (I)


"...where i can go, when I'm alone...
in to your arms I can go."
Lemonheads

estar fixada em seus braços
alguns braços
outros, certos, tortos,
fortes braços.

braços que me tocam
que entortam que não vejo
que imagino

braços que podem ser seus,
dele, deles, dos outros
meus

braços que atravessam paredes e telas
quadros, gravuras, espaços vazios

braços que pedem respostas
perguntam
perfuram a minha pele
e seguram a minha cabeça na hora de dormir.

braços que são seus, meus e não deles,
delas, dos outros

braços que me invadem e furam
braços que perfuram meu interior
e carregam mãos e dez dedos
borrifando meu cheiro
pelas esquinas

braços e mãos e dedos
que espalham
olhares e tatuagens

e proclamam o nosso amor
ferido
bandido, banido, torto, desmedido
e nossa paixão irracível, incessante
e "band-aid"
dentro de caixinhas, de papelão colorido,
feitas com cartões postais
distribuidos gratuitamente
por aí.

19.12.08

“O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada. O tempo apenas tira o incurável do centro das atenções.

Litoral - Ana C.

meu amor escapa outra vez pela
fenda calada do verso a voz
fraca sobre a curva naufraga
ondas mornas imóveis
meu amor escapa esta superfície
irrespirável enreda
o vôo o movimento
inverso não mais teus ossos
águas sem sopro onde uma
temporada apenas
neste inferno

sobre crime e castigo (IV)

(olhares.com)


você surfa e o risco de tomar um caldo é que você assume

o preço de se espatifar contra as pedras,
de bater nos corais,
de tomar um caldo
e ralar a barriga e os joelhos
é você quem paga

eu; não tenho nada com isso.

eu quero cantar uma música chiclete
que vai grudar nos seus ouvidos
e sair por aí
comendo vegetais
desejando procriar como uma selvagem no meio da floresta
achando tudo doce
certa de que a miséria não há de se instalar
nessa vida minha
que grita “vocês” a cada dobrar de esquina

eu quero pensar que a vida
é uma carona e uma conversa

um "hapenning" sem dar de cara com quem desgostamos
sem enfiarmos pela goela uma doença de não dizer
sem pensar que o fim está próximo
porque ele não está.

a vida é um postar-se pleno
é um peixe que a gente mata
e consome como alimento
um riso histérico que se ouve da menina na mesa ao lado
que quer conquistar um "borra-botas"
coitada...
ela não sabe que ele é um "borra-botas"

nós nunca sabemos quando ele é um "borra-botas",
mas sempre caímos em suas falácias
em sua lábia

no abismo!

18.12.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (VI)

(olhares.com)


era uma palavra triste

tão tristonha que nem sei...


morava num lugar longe

quase não tinha vizinhos

e chorava sozinha..


o coração apertado por um jeans skinny

soltava olhares de raio

e fazia muita força para bater

quase explodindo naquele corpo

espremido naquele zíper


e ela; a palavra triste,

triste de dar dó

a palavra nó na garganta.


palavra solidão

escondida na tristeza do não ter.


a palavra choro

camuflada na lágrima da tempestade

no olho do furacão.

na falta de sorte,


a palavra soluço

fantasiada de versos de amor


a palavra dor

cheia de botox na cara

tentando mentir a idade


a palavra saudade.


quanta saudade a tal da palavra deve sentir

dos entes queridos,

do amor esquecido,

das noites,

dos sorrisos em volta da mesa

das apostas perdidas

das molas tortas naquele colchão


da palavra tesão.


que sempre quando perto

acendia fósforos incendiando tudo


e a palavra triste

tristonha

na casa quase sem vida

escondida nos escombros do que imaginou ser ou ter;

tanto faz.


uma palavra perdida

só, triste, sem vida

sem cor, gosto, sabor.


uma palavra mascarada como o pierrôt que esqueceu

a colombina no baile de carnaval.


uma palavra que chora

um amor que pede esmola

e uma dor que não demora

para cavar um buraco bem fundo

fundo mesmo, muito fundo

no meio do labirinto que a ausência

desenhou dentro de mim.

15.12.08

Quando eu deixar de te amar, por Juliana Hollanda

"...

eu vou maldizer todos os dias de sol e as noites de lua cheia e os casais andando de mãos dadas passeando no parque dividindo um sorvete de casquinha. eu vou ter deixado de te amar e nada mais vai fazer sentido; só o meu vestido lilás sujo de terra, meus pés enlameados e as lágrimas que não vou mais chorar."


Tá lá no FALÓPIO.

POEMA COLETIVO

Por: Fernando Klipel, Beatriz Provasi, Juliana Hollanda e Ricardo Ruiz


Para mais do que me fez diminuir,

Em teus pés, fraquejo agora. Sorrindo. Pedindo um olhar. Um sopro qualquer que me faça um dia parar de existir.


Insisto. Às vezes pareço perder a força, mas não é nada. É um respiro. Um traço. Um fôlego novo para continuar vivendo “apesar de”; como Clarice.


Não me preocupo em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento

Amor é um eterno entender-se

É um eterno não saber

Amor é um remar de dentro

Por dentro

Para dentro

Mesmo que a gente, mês que sem querer chegue às vias de fato

E também saiba o que é poesia.


O caolho Camões falou

"Amor é um fogo que arde sem arder"

Fogo é fogo! Água é água!

Não há dúvidas

Os elementos circulam e seguem. Prosseguem

E a inércia? Como é que fica?


Não fica meu bem, adquire asas, voa e pousa por aí. Sempre querendo arder a mordida desaguada do semelhante.

Flutua, paira. Repete cada giro.

Observa sempre. Deseja arder querendo um dia parar. Pensar na pedra e chorar dura, sem volta, em voltas. Pairando.


10.12.08

sobre crime e castigo (III)

(olhares.com)


eles têm cheiro de nicotina, perfume e excessos.
um cheiro que gruda na pele e deixa-se levar
pela música e pela necessidade que têm de ser livres
os dois

ela não sabe dela enquanto mulher que sente frio e se despe
desnuda
ela sente-se tão menos do que deveria verdadeiramente sentir

mulher que ali
na precisão de un instante pensa no que foi e passou
do que existe deste cheiro que grudou em sua pele, rosto e nuca
no cheiro dela e no gosto dele
no gosto dela na boca dele

do que ela sente,
do que eles são
do que eles são quando ou enquanto dormem
do que deixam de ser

ela espera que ele tenha dormido em paz
dentro daquele sonho que ela pôde segurar
longe do que ela pode vir a se tornar
perto do que ainda não foi.

Sobre sapatos e fome (IV)

(olhares.com)

desesperada era ela, a mal amada
amálgama a fragmentar sofrimentos.

sentimentos idiotas de alguém que deixou os sapatos para fora do armário.
desconfianças e elocubrações de um traficante preso na gaiola;
trancafiado
trancado à sete chaves.

pensamentos desesperados
despertar de um pesadelo com um copo de coca-cola nas mãos
o cair de um abismo
o passo não dado e os passarinhos a piar verdades no meio de um nada

a morte
a vida
a morte
a vida
a morte
a vida
convivem.

9.12.08

i´ve been loving you too long to stop now

8.12.08

27.11.08

Sobre agulhas e tempo (IV)

(olhares.com)

era quando
uma certa manhã
o ir-se de passarinhos avoados
na janela
sozinhos com você
dando risada

risada de tudo que foi
do que já foi de você
ali pendurada naquela varanda
sem tirar os olhos da rua
com o coração aos sobressaltos
jogando abaixo seu armário
enchendo as pernas de creme hidratante
a cada respirar
passando perfume nos punhos...

cena mais patética de toda a patetice do mundo

todas as tardes perdidas a escolher roupas
sonhos esmagados nas solas de sapato sem salto e
todas as bolhas no pé
e os dias sem comer
e todos os goles de água com açúcar
e todas as lágrimas e o vinho desperdiçado

todo o amor e caretice junto com seus cabelos no ralo do chuveiro
toda a criatividade que você deixou que levassem
todos os ombros em que já derramou desafios
os arrotos que deixou de dar.

toda essa sua babaquice

[tiros no pé]

fios de ovos e toda a pólvora que você já comeu serviram para algo
além de te deixar com enjôo e anemia?
e todos os passarinhos que deixou de contemplar enquanto perdia tempo?!
isso valeu para te alimentar?

hoje, um beija-flor visita a sua varanda todas as tardes
para ele não há flores como antigamente
apenas folhas secas, vasos vazios, adubo e casca de ovo ressecada.

não há mais flores e você gargalha
ele te espera retomar o fôlego e vai

você espera pelo dia seguinte
olha no espelho e avista a saída.

Há! Saída.

26.11.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (V)

(olhares.com)

tudo misturado no aqui dentro

partes de frases costuram-se de medo e de "nãos"


impossibilidade na ponta dos dedos e um carretel sem ponta de linha para puxar.


não sei por onde começar ou terminar o que já está em andamento e preciso tecer minha colcha de retalhos habitual.


tanto por dizer perdido pelas estradas internas de meu corpo...

tanto por fazer, a dizer, a destrinchar...


é como um frango que a gente depena e dilacera para escaldar na panela de pressão para depois cozinhar com quiabos, servir com arroz.

é um lamber de beiços e limpar com o guardanapo. um gargalhar depois do almoço.

uma eterna festa sem convidados dentro de mim.

um contínuo bater de portas e malcriações.


um quer comer vendo tv,

outro está de dieta

e eu aqui, com milhares de "tuperwares" na geladeira cada um com um restinho de comida que eu não gosto

uma bagunça louca que eu não gosto

e milhares de pensamentos perdidos no tempo


esse tempo que venta ordens no meio da tarde


um fazer não fazer contínuo

de um não sei o que infantil

na indiferença de um dar de ombros e olhar para a frente


é como quase achar que é a mesma coisa

o encontrar de um abismo onde não se quer chegar

e um vôo sem asas sobre um despenhadeiro.

13.11.08

12.11.08

Achei bonito...


As mulheres voam
como os anjos:
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória

Disponíveis
para voar

soltas...

Primeiro
lentamente: uma por uma

Depois,
iguais aos passaros

fundas...

Nadando,
juntas

Secreta: a rasar o
chão

a rasar a fenda
da lua

no menstruo:
por entre a fenda das pernas

Às vezes é o aço
que se prende
na luz

A dobrarmos o espaço?

Bruxas:
pomos asas em vassouras
de vento

E voamos

Como as asas
lhe cresciam nas coxas

diziam dela:
que era um anjo do mar

Rondo alto,
postas em nudez de ombros
e pernas

perseguindo,

pelos espaços,
lunares
da menstruação

e corpo desavindo

Não somos violencia
mas o voo

quando nadamos
de costas pelo vento

até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz

Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras

pelo tacto?

Somos os anjos
do destino

com a alma
pelo avesso
do útero

Voamos a lua
menstruadas

Os homens gritam:
– são as bruxas

As mulheres pensam:
– são os anjos

As crianças dizem:
– são as fadas

Fadas?

filigrama cintilante
de asas volteando
no fundo da vagina

Nadamos?

De costas,
no espaço deste século

Mudar o rumo
e as pernas mais ao
fundo

portas por trás
dobradas pelos rins

Abrindo o ar
com o corpo num só golpe

Soltas,
viando
até chegar ao fim

Dizem-nos:
que nos limitemos ao espaço

Mas nós voamos
também
debaixo de água

Nós somos os anjos
deste tempo

Astronautas,
voando na memória
nas galáxias do vento...

Temos um pacto
com aquilo que
voa

– as aves
da poesia

– os anjos
do sexo

– o orgasmo
dos sonhos

Não há nada
que a nossa voz não abra

Nós somos as bruxas da palavra.

( Maria Tereza Horta )

7.11.08

Bienal dos Piores Poemas VI


Diálogo Necessário
(Blanche)

- Esta com falta de ar ?
- Ar ?
- AR .
- TAUD .

(Homenagem a Antonin Artaud)

+ EM: http://www.oficcinamultimedia.com.br/bpp6.htm

6.11.08

eu querooooooooooooooooooooo!!!!

há muito tempo não desejava tanto uma coisa material. eu queroooooooo um nintendo wii para poder jogar Mario de novo.

Regressão? Complexo de Cinderela? ou ... [complete os pontinhos]

31.10.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (IV)

"EDITADO" por Thereza Christina Rocque da Motta

há um momento no meio da tarde em que o buraco se instala
numa certa parede colorida dentro da alma
e não é possível esconder documentos em gavetas
e nem procurar canetas perdidas debaixo dos sofás

aquele momento em que o buraco se instala
faz com que tudo ao redor pare
e tudo que anda girando em sua cabeça continue a girar

é mais ou menos como a taquicardia que adquiriu por tomar remédios para
emagrecer
ela aparece quando menos se espera
numa certa porta aberta dentro do coração

é difícil entrar e subir as escadas
ao mesmo tempo você lembra que deixou a chave do portão no trinco
vê que a piscina está suja e está tudo uma bagunça e se desespera e não
quer mais que a noite chegue
e nem que dias passem
peneirando a alma

perfurada

por buracos abertos
no meio da tarde

-----------------------------------------

Crítica do editor, poeta e amigo, João José de Mello Franco

Juju, perfeito é ser profundo e claro ao mesmo tempo. E é isso que, em geral, diferencia, o pequeno do grande poeta. O grande poeta não conta com a sorte e o acaso. Essas coisas ele(a) as incorpora e as transforma em parte de sua visão e técnica. Por isso esse poema é tão bom. Ele é a sua cara (leia-se visão e técnica) e isso é perfeito.

Uma grande verdade




Descobri aqui: http://biprisma.blogspot.com/

Sobre discursos suicidas - por Alexandre França

Os poemas e expressões faciais
Que nos fazem chorar falam
Geralmente aquilo que gostaríamos
De falar antes de ocasionais suicídios
É por isto que eu sempre digo
Nada como uma meia-luz
E uma música triste
Para animar o ambiente

AMORAMÉRICA

28.10.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (IV)

há um momento no meio da tarde
em que o buraco se instala numa certa parede colorida
dentro da alma
e não é possível esconder documentos em gavetas
e nem procurar as canetas perdidas embaixo dos sofás

este momento em que o buraco se instala
faz com que tudo ao redor pare
e tudo que anda girando na sua cabeça continue a girar

é mais ou menos como a taquicardia que você ganhou por tomar remédios para emagrecer
ela aparece quando menos se espera
numa certa porta aberta dentro do coração

é difícil entrar e subir as escadas

ao mesmo tempo você lembra que deixou a chave do portão no trinco
vê que a piscina está suja e está tudo uma bagunça
você se desespera e não quer mais que a noite chegue
e nem que dias passem

a alma peneirada
por buracos abertos

pedaço de tule

no meio da tarde

15.10.08

Impredível 4 de novembro - Vem aí, AMORAMÉRICA


AMORAMÉRICA 2008

Os Sete Novos são três. O coletivo de poetas é formado por Augusto de Guimaraens Cavalcanti, Mariano Marovatto e Domingos Guimaraens. Formado em 2006 no Rio de Janeiro, lançaram no mesmo ano seus respectivos livros pela Editora 7Letras: Poemas para se ler ao meio-dia, O primeiro vôo e A gema do sol. Em 2008, Os Sete Novos publicam, pela mesma editora, seu primeiro livro em conjunto: AMORAMÉRICA. O lançamento carioca será Dia 4 de Novembro, às 19 horas no Espaço Cultural Sérgio Porto no Humaitá. Já o lançamento paulista será dia 7 de Novembro, às 20 horas, na Mercearia São Pedro, Vila Madalena.

Se apropriando do poema-slogan amor-humor de Oswald de Andrade, os três Sete escrevem sua panamericana AMORAMÉRICA do século XXI. Como já dizia Paulo Leminski poesia é prazer é um inutensílio essencial. E se Allen Ginsberg decretou The Fall of America em 1971, nós já pensamos um pouco diferente. Somos todos Americanos na grande Mátria América. Já diria Pablo Neruda em seu poema Amor América que antes dos rios arteriais veio o grande sonho púrpuro chamado América. Henry Miller já dizia que os livros que melhor compreenderam os Estados Unidos foram feitos por escritores estrangeiros. De fato, Franz Kafka, Tocqueville e Maiakóvski possuem relatos definitivos, cada um a sua maneira, sobre a grande nação norte-americana. Juntando as highways siderais de Jean Baudrillard e os outdoors mitológicos de Agrippino de Paula; aqui está: AMORAMÉRICA 2008.

14.10.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (III)


procurar respostas para não perguntas é buscar no infinito galáxias de dúvidas e enfiar nas veias com uma seringa enferrujada doses de um medicamento que entorpece.


[fisgadas do último orgasmo]

eu não sabia quão difícil seria te ter, mas eu queria ser sua até o último gole então,

apostei todas as fichas no que eu enxergava na menina dos seus olhos de menino desamparado.

[jogo que não acabou ainda]


não é prudente dizer que eu perdi.


penso em você como impossível mesmo vivendo você como possível durante todas as 24 das 360 horas dos meus dias sem sua companhia.

mesmo sentindo esse amor com todas as sensações gostosas do mundo.

mesmo esperando no infinito constelações de para sempre que talvez nunca sejam descobertas.

Muito espirituoso

13.10.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (II)


Palavras por dizer, por Juliana Hollanda

Por pouco ele não te ligou de novo ontem a noite. Você pensou o tempo todo que ele fosse te ligar novamente ontem a noite? Ele pensou em te ligar outra vez ontem a noite. Ele se imaginou ligando para você ou te encontrando por acaso.

Dependendo da temperatura, ele imaginou você num daqueles seus vestidos floridos de algodão ou num jeans desbotado com um casaco de lá bem grossa por cima de uma camisetinha tomando café de uma caneca e olhando através daqueles seus óculos de casco de tartaruga para um livro de poesia enquanto chove. Ele pensa em você com o cabelo amarrado na nuca e aquele cheiro doce característico do seu cangote. Ele imagina você desse jeito quando ele está no trem, no supermercado, na casa dos pais dele, a noite sozinho e até quando ele está com outra mulher.

Ele está enganado. Você não lê poesia e ele queria que você lesse poesia, mas você não lê. Se pressionado ele confessa uma enormidade de coisas que você lê e, não foi o que você lê que começou isso. Foram as risadas e o anúncio de coca-cola colado na parede do seu quarto, o tentar de tudo enquanto amigos, a imprevisibilidade de tudo que veio antes de você, a corrente, os telefonemas, as piadas espirituosas, a música instantânea, a luz do sol que você carrega contigo, o jeito que ele se sentiu quando você conheceu os pais dele, as faculdades que você não terminou, o segredo do seu sucesso, as casas alugadas na praia, a sua calcinha de renda branca, a sua dança sensual entre quatro paredes, a falta de expectativas, a família, a páscoa, o clássico, o moderno, o pós-moderno, o orgasmo, o feminino, o feminismo e o jeito que você muda tudo quando começa a preparar uma salada.

Missing

Love was like rain; it turned to ice, or it disappeared. Now you saw it, now you couldn’t find it no matter how hard you might search. Love evaporated; obsession was realer; it hurt, like a pin in your bottom, a stone in your shoe. It didn’t go away in the blink of an eye. A morning phone call filled with regret. A letter that said ‘Dear you, good-bye from me.’ Obsession tasted like something familiar. Something you’d known your whole life. It settle and lurked; it stayed with you.

— Alice Hoffman, The Ice Queen

9.10.08

Sobre paisagem e movimento (IV)

(olhares.com)


borboletas fora do estômago
causam agora
taquicardia

sobre nuncas e crises de ansiedade (I)

(olhares.com)


não eram olhares a escorrer da retina nem pensamentos à explodir na mente.

era horror com gosto de velhas fotografias, jornais velhos e muita poeira.


na garganta, o nó e os nadas.


o grito saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.

a língua a fazer estardalhaço e propaganda: “apresente um amigo e ganhe um prêmio”.


sem o grito ela nunca mais teve orgasmos e nem jantou à luz de velas.


ele deveria estar perdido lá no país dos sucos gástricos ou nas bolsas de alimentos já triturados, nos sacos de lixo...


ela nem desconfiava que ele estava era preso. onde(?) ela nem ousava perguntar. o medo de ouvir a resposta era maior que a curiosidade, talvez encontrasse algum espião em meio aos dentes.

8.10.08

6.10.08

Festival do Rio 2008 - Days SIX, SEVEN, EIGHT

CHOKE




AMOR E HONRA




REBOBINE POR FAVOR

Sobre o que poderia ser,

poderia ser o sol quente a entrar pela janela
uma mão quente a me afagar os ombros
o beijo molhado de uma tarde de verão
ou suor que se espalha nos lençóis depois de um bem estar muito bom

poderia ser o movimento do vento em uma noite de outono
os pingos de chuva que molham o nariz
a respiração ofegante
desejo, imã, sorte, prazer

poderia ser tudo isso,
mas é angústia.