31.10.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (IV)

"EDITADO" por Thereza Christina Rocque da Motta

há um momento no meio da tarde em que o buraco se instala
numa certa parede colorida dentro da alma
e não é possível esconder documentos em gavetas
e nem procurar canetas perdidas debaixo dos sofás

aquele momento em que o buraco se instala
faz com que tudo ao redor pare
e tudo que anda girando em sua cabeça continue a girar

é mais ou menos como a taquicardia que adquiriu por tomar remédios para
emagrecer
ela aparece quando menos se espera
numa certa porta aberta dentro do coração

é difícil entrar e subir as escadas
ao mesmo tempo você lembra que deixou a chave do portão no trinco
vê que a piscina está suja e está tudo uma bagunça e se desespera e não
quer mais que a noite chegue
e nem que dias passem
peneirando a alma

perfurada

por buracos abertos
no meio da tarde

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Crítica do editor, poeta e amigo, João José de Mello Franco

Juju, perfeito é ser profundo e claro ao mesmo tempo. E é isso que, em geral, diferencia, o pequeno do grande poeta. O grande poeta não conta com a sorte e o acaso. Essas coisas ele(a) as incorpora e as transforma em parte de sua visão e técnica. Por isso esse poema é tão bom. Ele é a sua cara (leia-se visão e técnica) e isso é perfeito.

Uma grande verdade




Descobri aqui: http://biprisma.blogspot.com/

Sobre discursos suicidas - por Alexandre França

Os poemas e expressões faciais
Que nos fazem chorar falam
Geralmente aquilo que gostaríamos
De falar antes de ocasionais suicídios
É por isto que eu sempre digo
Nada como uma meia-luz
E uma música triste
Para animar o ambiente

AMORAMÉRICA

28.10.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (IV)

há um momento no meio da tarde
em que o buraco se instala numa certa parede colorida
dentro da alma
e não é possível esconder documentos em gavetas
e nem procurar as canetas perdidas embaixo dos sofás

este momento em que o buraco se instala
faz com que tudo ao redor pare
e tudo que anda girando na sua cabeça continue a girar

é mais ou menos como a taquicardia que você ganhou por tomar remédios para emagrecer
ela aparece quando menos se espera
numa certa porta aberta dentro do coração

é difícil entrar e subir as escadas

ao mesmo tempo você lembra que deixou a chave do portão no trinco
vê que a piscina está suja e está tudo uma bagunça
você se desespera e não quer mais que a noite chegue
e nem que dias passem

a alma peneirada
por buracos abertos

pedaço de tule

no meio da tarde

15.10.08

Impredível 4 de novembro - Vem aí, AMORAMÉRICA


AMORAMÉRICA 2008

Os Sete Novos são três. O coletivo de poetas é formado por Augusto de Guimaraens Cavalcanti, Mariano Marovatto e Domingos Guimaraens. Formado em 2006 no Rio de Janeiro, lançaram no mesmo ano seus respectivos livros pela Editora 7Letras: Poemas para se ler ao meio-dia, O primeiro vôo e A gema do sol. Em 2008, Os Sete Novos publicam, pela mesma editora, seu primeiro livro em conjunto: AMORAMÉRICA. O lançamento carioca será Dia 4 de Novembro, às 19 horas no Espaço Cultural Sérgio Porto no Humaitá. Já o lançamento paulista será dia 7 de Novembro, às 20 horas, na Mercearia São Pedro, Vila Madalena.

Se apropriando do poema-slogan amor-humor de Oswald de Andrade, os três Sete escrevem sua panamericana AMORAMÉRICA do século XXI. Como já dizia Paulo Leminski poesia é prazer é um inutensílio essencial. E se Allen Ginsberg decretou The Fall of America em 1971, nós já pensamos um pouco diferente. Somos todos Americanos na grande Mátria América. Já diria Pablo Neruda em seu poema Amor América que antes dos rios arteriais veio o grande sonho púrpuro chamado América. Henry Miller já dizia que os livros que melhor compreenderam os Estados Unidos foram feitos por escritores estrangeiros. De fato, Franz Kafka, Tocqueville e Maiakóvski possuem relatos definitivos, cada um a sua maneira, sobre a grande nação norte-americana. Juntando as highways siderais de Jean Baudrillard e os outdoors mitológicos de Agrippino de Paula; aqui está: AMORAMÉRICA 2008.

14.10.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (III)


procurar respostas para não perguntas é buscar no infinito galáxias de dúvidas e enfiar nas veias com uma seringa enferrujada doses de um medicamento que entorpece.


[fisgadas do último orgasmo]

eu não sabia quão difícil seria te ter, mas eu queria ser sua até o último gole então,

apostei todas as fichas no que eu enxergava na menina dos seus olhos de menino desamparado.

[jogo que não acabou ainda]


não é prudente dizer que eu perdi.


penso em você como impossível mesmo vivendo você como possível durante todas as 24 das 360 horas dos meus dias sem sua companhia.

mesmo sentindo esse amor com todas as sensações gostosas do mundo.

mesmo esperando no infinito constelações de para sempre que talvez nunca sejam descobertas.

Muito espirituoso

13.10.08

sobre nuncas e crises de ansiedade (II)


Palavras por dizer, por Juliana Hollanda

Por pouco ele não te ligou de novo ontem a noite. Você pensou o tempo todo que ele fosse te ligar novamente ontem a noite? Ele pensou em te ligar outra vez ontem a noite. Ele se imaginou ligando para você ou te encontrando por acaso.

Dependendo da temperatura, ele imaginou você num daqueles seus vestidos floridos de algodão ou num jeans desbotado com um casaco de lá bem grossa por cima de uma camisetinha tomando café de uma caneca e olhando através daqueles seus óculos de casco de tartaruga para um livro de poesia enquanto chove. Ele pensa em você com o cabelo amarrado na nuca e aquele cheiro doce característico do seu cangote. Ele imagina você desse jeito quando ele está no trem, no supermercado, na casa dos pais dele, a noite sozinho e até quando ele está com outra mulher.

Ele está enganado. Você não lê poesia e ele queria que você lesse poesia, mas você não lê. Se pressionado ele confessa uma enormidade de coisas que você lê e, não foi o que você lê que começou isso. Foram as risadas e o anúncio de coca-cola colado na parede do seu quarto, o tentar de tudo enquanto amigos, a imprevisibilidade de tudo que veio antes de você, a corrente, os telefonemas, as piadas espirituosas, a música instantânea, a luz do sol que você carrega contigo, o jeito que ele se sentiu quando você conheceu os pais dele, as faculdades que você não terminou, o segredo do seu sucesso, as casas alugadas na praia, a sua calcinha de renda branca, a sua dança sensual entre quatro paredes, a falta de expectativas, a família, a páscoa, o clássico, o moderno, o pós-moderno, o orgasmo, o feminino, o feminismo e o jeito que você muda tudo quando começa a preparar uma salada.

Missing

Love was like rain; it turned to ice, or it disappeared. Now you saw it, now you couldn’t find it no matter how hard you might search. Love evaporated; obsession was realer; it hurt, like a pin in your bottom, a stone in your shoe. It didn’t go away in the blink of an eye. A morning phone call filled with regret. A letter that said ‘Dear you, good-bye from me.’ Obsession tasted like something familiar. Something you’d known your whole life. It settle and lurked; it stayed with you.

— Alice Hoffman, The Ice Queen

9.10.08

Sobre paisagem e movimento (IV)

(olhares.com)


borboletas fora do estômago
causam agora
taquicardia

sobre nuncas e crises de ansiedade (I)

(olhares.com)


não eram olhares a escorrer da retina nem pensamentos à explodir na mente.

era horror com gosto de velhas fotografias, jornais velhos e muita poeira.


na garganta, o nó e os nadas.


o grito saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.

a língua a fazer estardalhaço e propaganda: “apresente um amigo e ganhe um prêmio”.


sem o grito ela nunca mais teve orgasmos e nem jantou à luz de velas.


ele deveria estar perdido lá no país dos sucos gástricos ou nas bolsas de alimentos já triturados, nos sacos de lixo...


ela nem desconfiava que ele estava era preso. onde(?) ela nem ousava perguntar. o medo de ouvir a resposta era maior que a curiosidade, talvez encontrasse algum espião em meio aos dentes.

8.10.08

6.10.08

Festival do Rio 2008 - Days SIX, SEVEN, EIGHT

CHOKE




AMOR E HONRA




REBOBINE POR FAVOR

Sobre o que poderia ser,

poderia ser o sol quente a entrar pela janela
uma mão quente a me afagar os ombros
o beijo molhado de uma tarde de verão
ou suor que se espalha nos lençóis depois de um bem estar muito bom

poderia ser o movimento do vento em uma noite de outono
os pingos de chuva que molham o nariz
a respiração ofegante
desejo, imã, sorte, prazer

poderia ser tudo isso,
mas é angústia.

3.10.08

Friendship

Sobre paisagem e movimento


Minha editora, Thereza Christina Rocque da Motta, leu o texto do afogamento e fez uns cortes nele.

Para Adriana Monteiro de Barros
nunca me afoguei em água, mas não
posso dizer que jamais me afoguei.
já me afoguei em (a)dversidades.
álcool, dor, choro, sabonete
líquido. nicotina, tapas, gritos,
pressão.
já me afoguei em lágrimas,
músicas tristes e poesia.
me afoguei em ventania e excessos.
mergulhei numa viagem sem rumo e
sem volta...
me afoguei em fumaça e em falta.
me afoguei em saudade.

em água, não! em água, eu nunca me afoguei.

só em tédio. em perguntas sem resposta. em dúvidas, desespero e medo.
em paixão desenfreada, carro desgovernado, desassossego.
em quartos sem luz, em escuridão,
colchões duros, em frio.
já me afoguei em nadas.

em tudo, não! nunca me afoguei em água.

não que algumas dessas vezes eu desejasse me afogar. nunca me afoguei por querer.
simplesmente aconteceu, todas as vezes.
afogar-se é imprevisível...

já me afoguei em telefonemas, em cartas mal escritas, em palavras não pronunciadas.
em palavras impronunciáveis. em raiva, palavrão.
já me afoguei nos outros, e até em mim mesma eu me afoguei.

em água, não! nunca.

naquilo que pode ser. no que é e no que foi... eu já me afoguei.
em planos não executados, e até no que deu certo, eu me afoguei.

sou peixe. dentro da água me comporto bem.
só me afogo fora d'água.
já desisti de aprender a nadar na imensidão.

Surprise!

*e eu tomei coragem e mandei um e-mail para o Blake Morisson ainda sob efeito de: Quando foi a última vez que você viu seu pai? e ele... respondeu.

Surpresas como estas fazem o meu coração angustiado "desapertar" um pouco...


Jupy,

Thank you for writing. Funnily enough I was giving a reading from my books up in Yorkshire last night, immediately ahead of a showing of the film. The people there were emotinally very affected too. People identify because of the universality of the emotions - we all have families, we all recognise feelings of loss, jealousy, anger, protectiveness and so on.
I will be interested to see if you like the book as much as the film. There is a Portugese translation, but I don't think it's available in Brazil, only Portugal. So you may have to read it in English.
And then there's the book about my mother. And the poems...

best wishes, Blake Morrison

Eu penso assim...




sobre crime e castigo (II)



você ama como quem dá um tapa e diz que quem dorme com você tem que confiar e se eu não confiasse não abriria mão da camisinha, mas às vezes eu desconfio e desconfiando o coração aperta e eu não sei o que fazer, pois a vontade é somente de chorar.
parece que tem uma mão apertando o meu coração com força até ele explodir e o meu pensamento em você, ora bom, ora mau, desperta os meus desejos mais intensos e faz o meio das pernas se apertar como sanduiche e imagino você entrando no meu meio e a sua língua recheando os lábios e sua saliva amolecendo tudo e mesmo impedida de explodir; em pensamento explodo como meu coração.
só que às vezes vem à mente uma risada ao longe e um pensamento feio de você com alguém que não eu e a vontade de apertar seu pensamento e sacudir sua cabeça como um chocalho e descobrir suas verdades sem ter que me ajoelhar no chão e implorar respostas de eu também. eu também queria ouvir "não aguento mais ficar sem te ver", "meu coração também tá apertado sem você", "sim, eu escrevi que o nosso pra sempre é para sempre e é verdade", "não ninguém divide os lençois comigo", "sim, você é única", mas você é insconstante e ao mesmo tempo em que escreve coisas lindas para mim se omite, sublima, desdiz essas coisas diz que me ama como quem dá um tapa na cara e me pede para telefonar para você cedo o que me faz pensar que mais tarde que mais tarde que depois das dez você estará em outro lugar porque ontem você me disse que estava com vontade de fuder e eu também estou com vonatde de fuder e a gente tá longe um do outro e não pode fazer isso e você disse que eu não podiaria te impedir de tocar uma e eu disse que claro que não, mas eu queria que você fizesse isso pensando em mim até porque você nunca mais disse nosso quarto, nossa cama e eu queria saber em quem você pensa quando você se toca e eu queria me tocar também e eu queria me esfregar em você e não é possível agora e semana que vem talvez seja tarde demais é o que penso e eu queria poder fazer loucuras, mas não posso e eu queria ser inconsequente e ter muitos cartões de crédito como antigamente e uma conta bancária bem recheada para poder fazer loucuras e ser inconsequente e eu queria pensar que você sente saudade como quem lambe um sorvete e não como quem dá um empurrão.
eu queria que você me machucasse na hora da cama, porque você diz que me ama como quem dá um tapa e a dor que fica é angústia e o pensamento que se produz é de incerteza e eu queria sentir os seus lábios nos meus e saber que esse sentir todo é real.

http://blog.extensis.com/typecaster/

Typecast Yourself!

Festival do Rio 2008 - Day Five

8) A raiva

2.10.08

Festival do Rio 2008 - 4rth Day

7) Boogie




Cloud 9 (*) - [Não liberado.]




Downloading Nancy? (*) - [Não liberado.]

1.10.08

Diferenças

Festival do Rio 2008 - 3rd Day

6) O céu, a terra, a chuva

Quando você viu seu pai pela última vez?

Saí do cinema em frangalhos. Não só com a cara inchada e lágrimas que jorravam como rios arrancando meus olhos. Não só por ter me colocado o tempo todo refletida naquele filho que perdeu o pai, mas por me perceber na angústia daquela mãe, nas atitudes da filha com ciúme do irmão, do marido que procura a primeira namorada, no homem que não se sente aceito pelo pai, no filho que vê o sofrimento da mãe e não pode fazer nada porque não há dialogo. O filme retrata exatamente as palavras por dizer. As atitudes não tomadas. As festas não celebradas. O filme fala de sentimento e de solidão. E de escapadas. De aventura. De cumplicidade. De sofrimento. O filme fala do esconder-se. Do sofrer. Do despertar. O filme fala do invisível que se esfrega na nossa cara o tempo todo. O filme fala do que se sente. Do que não se aceita. Do ficar calado. Do não dizer. Da mentira consentida. De traição, da de fato, mas também do trair-se.
Rios jorravam de meus olhos em forma de lágrima. A cara inchada. O nariz vermelho.
Saí do cinema em frangalhos e quase não consegui andar para casa.

Foi bom pelo fazer pensar.

E eu até agora estou com este questionamento martelando na cabeça: Quando será que eu ví meu pai pela última vez?

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Colin Firth as Blake Morrison

A painful, funny, frightening, moving, marvellous book … everybody should read it.
— Nick Hornby

What Blake Morrison has produced is a classic of family literature … The life is held up so close to one's face that one can smell it, touch it, marvel at the power of words to unlock and unravel, then pour helter-skelter over our heads this magical brainstorm of memories.
— Hugo Williams, Spectator

Blake Morrison lays one of the most basic human relationships out on the slab, dissects it and displays it … the effect is pungent, disturbing, entirely unforgettable.
— Sean French, The Times

A near-masterpiece … Morrison writes with a reckless respect for the truth.
— Roy Hattersley, Guardian

Poema de Blake Morrisson

Against Dieting

Please, darling, no more diets.
I've read the books on why it's
good for one's esteem.
I've watched you jogging lanes and pounding treadmills.
I've even shed some kilos of my own.
But enough. What are love handles
between friends? For half a stone
it isn’t worth the sweat.
I've had it up to here with crispbread.
I doubt the premise, too.
Try to see it from my point of view.
I want not less but more of you.


**"Conheci" este poeta ontem, no filme : "Quando você viu seu pai pela última vez?". O filme só cita o fato de ele ser poeta e eu vim procurar coisas dele na internet. Dei de cara com este primeiro poema que é o que todas as mulheres gostariam de ouvir de seus respactivos ainda mais nesta época de ditadura da magreza X mulheres com lordose. (SIC) .