4.2.09

Sobre camuflagem e pisões no pé (III)

CARTA 3:


Dear J.,

Vejamos se posso provocar uma partida de idéias e sentimentos sobre o faber poético. Se isso é possível. Pois era essa a minha idéia quando iniciei há dias uma troca epistolar com Vossa Reverendíssima. Quando lemos Homero por exemplo além da qualidade das imagens e metáforas há um "rio" subterrâneo, uma espinha dorsal, os dois assuntos de seus textos são, basicamente, a guerra imperialista grega [ataque à Troia] e o retorno do vencedor [herói] aos braços de sua mulher [uma temática bem Hollydiana e melodramática] [convenhamos] Depois de experimentar Calypso e suas maravilhosas mulheres, o "conservador" Ulysses cai nos braços da velha Penélope. Portanto na Ilíada há a apoteose da violência e da guerra e as mesquinharias desse processo [intrigas] que até hoje encantam os homens. Não é a toa que Tolstoy escreve "Guerra e Paz" tendo como fundo de pano, fundo musical a guerra entre As Monarquias e Napoleão, o "usurpador", o sanguinário que se nomeia nobre colocando a sua coroa em sua própria cabeça. Como você vê, há um sistema sanguíneo que corre por baixo dos textos - digamos canônicos - que mereceria da sua parte, pelo menos uma reflexão porque - esta a minha aposta - isso poderá ajudá-la a mergulhos mais profundos, acredito. Não tenho certeza mas pode ser um outro caminho que pode atrair novas facetas para sua pena. Da mesma forma Dante realiza a mesma operação: o rio submerso é a paixão platônica entre um velho/adulto e uma ninfeta, um precursos do grande Lolita de Nabokov, esperto como ninguém ele inventa um cristianismo para poder explorar esta grande e maravilhosa transgressão.

Quem sabe vc não aprecia essa minha forma exdruxula de epístula, espero que goste e que se distraia com ela.

Abraços.

G.


RESPOSTA 3:

G.,

Não acredito numa idéia de fazer poesia com um pano de fundo sanguinário.

Sangue, guerra, bombardeios, balas perdidas, granadas e incompreensões entram em nossa casa todos os dias através de telejornais.

Todas as manhãs, acordamos com periódicos com fotos de carros incendiados e manchetes de roubo, morte, injustiças. Salvo o de hoje de manhã quando a manchete dizia que policiais haviam sido atacados por latas na praia após tentar prender um suposto fumante de substâncias ilícitas – confesso que ri da fragilidade humana e da idiotice que seria prender uma pessoa na praia enquanto turistas ingleses são assaltados por policiais e os bandidinhos e bandidões continuam à solta.

Quando o simples ato de ir à Lapa comemorar as boas notas acaba em morte e o término de um namoro vira assassinato – acho importante refletir sobre os perigos de se sair de casa e por isso, acho importante abrir uma garrafa de vinho ao lado do homem amado e me aconchegar em seu ombro para que sejam esquecidas essas notícias que despertam a síndrome de pânico que habita em nós e nos faz querer nunca mais ficar expostos à esses fatores externos.

Acredito no AMOR e sim maiúsculo, pois por mais conturbado que possa parecer amar alguém não posso permitir que meu inconsciente traga à tona ligações e imagens de AMOR e morte. Paixão e morte. Excitação e morte.

Orgasmo pode ser uma "pequena morte" no francês, mas é uma morte viva. Um círculo vicioso do renascer. E incrível o encontro, ou melhor quando encontramos aquela pessoa com quem desejamos passar o resto da vida "morrendo/nascendo/morrendo/nascendo...".

Sobre cinema, posso dizer que às vezes, sim é muito bom assistir uma película água com açúcar que toma corpo em construção melodramática holywoodiana, embora, prefira filmes irlandeses, franceses, iranianos, ingleses, italianos, neozelandeses e até porque não; japoneses, coreanos e chineses.

Quanto à sarcasmo só posso dizer que acho desnecessário e que o"Vossa qualquer coisa" só me lembrou uma vontade quase incontrolável de soltar um palavrão bem alto! Nada comparado com a sensação do primeiro castigo recebido dos meus pais que nunca existiu.

Sobre o "esdrúxula" e o "divertir-me", sim!adorei esta maneira passivo agressiva de auto-elogio.

Já te disse que nado de acordo com a maré e que tenho brevê de mergulho para saltos mais profundos. Já vi peixes, golfinhos, corais, anêmonas, moréias e até mesmo tubarões no fundo do mar e adoro Cancún, Cozumel e Angra dos Reis.

Caminho sempre sobre uma linha reta, às vezes pontilhada, mas adoro ligar os pontos às vezes. Destes livretos infantis, surgem de quando em vez, lindas figuras.

Abc,

J.

Da série: papai deveria ter me deixado mais de castigo
ou
estas definitivamente não são cartas de amor.

Um comentário:

Sunflower disse...

Mas amando a gente transborda, e se desprotege, e se fere, e sangra, mesmo quando não a intenção, não?

Tem coisa mais violento e cheia de atrito e maravilhosa que o sexo?


beijas