18.9.08

Sobre paisagem e movimento (I)

(olhares.com)


Para Adriana Monteiro de Barros


nunca me afoguei nem tentei me afogar em água.

não sei como é e nem nunca senti as narinas sem conseguir respirar

num soltar de bolhas constantes.


não posso dizer que nunca me afoguei.


já me afoguei em (a)dversidades. álcool, dor, choro, sabonete líquido. nicotina, tapas, gritos, pressão.

já me afoguei em lágrimas, músicas tristes e poesia.

me afoguei em ventania e excessos.

mergulhei numa viagem sem rumo e sem volta.

me afoguei em fumaça e em falta. me afoguei em saudade.


em água, não. nunca me afoguei. nunca me afoguei em água.


em tédio.em perguntas sem resposta. em dúvidas, desespero, medo.

já me afoguei em paixão desenfreada, carro desgovernado, desassossego.

em quartos sem luz, em escuridão, colchões duros, frio.

já me afoguei em nadas.

em tudo não! nunca me afoguei em água.


não que algumas dessas vezes eu desejasse me afogar. nunca me afoguei querendo. o afogamento simplesmente aconteceu todas as vezes.

o afogar-se é imprevisível...


já me afoguei em telefonemas, em cartas mal escritas, em palavras não pronunciadas. em palavras impronunciáveis. em raiva, palavrões.


já me afoguei nos outros e até em mim mesma eu me afoguei.

em água; não! nunca me afoguei.


naquilo que pode ser . no que é e no que foi... já me afoguei.

em planos não executadoss e até no que deu certo; me afoguei.


sou um peixe. dentro da água me comporto bem.

só me afogo fora dela.

já desisti de aprender a nadar na imensidão.

2 comentários:

Sunflower disse...

gostei desse. mesmo. muito.

beijas

adriana monteiro de barros disse...

Minha querida Ju, teu nome é doce como vc, aliás como minha filhota tb. Mas este poema é tanto, tanto de bom que não dá pra comentar, não...é sentir, e se afogar nas palavras maravilhosamente sentidas que vc transbordou...LINDO! è a minha cara mesmo, mas as palavras são suas, então PARABÉNS por mais este coração dilacerado! Te vejo na Flap.
bjs no coração,
te amo