21.1.09

Sobre infância e liberdade (III)

Da série: Esta não é uma carta de amor, por mais que se proponha a ser.

Querido R.,

Certamente você vai estranhar depois de tantos anos receber um e-mail pessoal meu.

Isto vai te dar, possivelmente, a mesma sensação que eu tive ao acordar hoje de manhã e me aperceber que sonhei praticamente a noite toda com você.

O conteúdo do sonho não vale a pena falar até porque eu não lembro direito do mesmo, mas remeteu-me a várias situações passadas/vividas por nós ao mesmo tempo em que ocorreu a mais diversa situação e com várias pessoas (conhecidas) em volta de nós, enfim...

Lembro-me de uma enchente e tudo começou por causa dela. Você surgiu no meio da tempestade para me salvar e realmente não posso te dizer e nem imaginar o motivo para o meu inconsciente ter colocado você ali na minha frente com uma corda na mão e depois, nem como, esse mesmo, meu inconsciente conseguiu colocar a gente num carro comum que andava no meio do aguaceiro até nos deixar num lugar seguro com muita gente em volta. Esse lugar tinha o pé direito muito baixo e várias portas que de cada vez abertas, surgiam pessoas. Nessa algazarra, conversamos. Do conteúdo dos diálogos, não lembro, só de que foram importantes. Não é possível me fazer lembrar de que forma uma palavra costurava-se à outra e a outra até meu acordar hoje de manhã.

Não consegui entender o porquê de você ter surgido no meu sonho, mas hipóteses existem e, não sei por quê, também achei importante escrever este e-mail pessoal em forma de carta para você, depois de tantos e tantos anos sem nos dirigirmos a palavra, nem em telefonemas, nem por e-mail e nem pessoalmente.

Uma das hipóteses é que você também tenha sonhado, mesmo que remotamente comigo e nesta noite nossos personagens tenham se misturado um no sonho do outro. Pode ser também que você tenha pensado em mim e esse tenha sido um trabalho da “Matrix” para fazer com que nos comunicássemos, mas a mais plausível, para mim ao menos, para você ter aparecido no meu sonho tenha sido porque recentemente e bem recentemente falei de você para o meu irmão e contei a nossa história, não que me assombre, mas foi importante e, não sei, me deu certa nostalgia lembrar da última vez que nos vimos, daquele Natal aí em que nós, as únicas pessoas vestidas de mesma cor quase não se falaram e trataram-se, talvez como estranhos; da sensação esquisita que tive, e, ao mesmo tempo, o fato de eu me lembrar e linkar todas as situações importantes em que você esteve presente na minha vida e o meu pensar em todas as situações importantes da sua vida em que eu estava presente e em tantas outras em que me fiz tão ausente...

E pensar agora que estou escrevendo, em todos os "acordos" que fizemos, e no fio de lágrima que me escorre dos olhos agora ao lembrar do “Vô P.” e de como ele se foi “desconfiando”(lembra da frase que ele sempre falava? Eu lembro.) e de como os “planos dele” não deram certo e de como a nossa vida mudou e do quanto nos afastamos (mesmo sem querer, sem perceber) e agora que me dei conta disso, essa minha necessidade de, talvez, falar tantas coisas, mesmo que elas não sejam nenhum pouco significantes e nem significativas para você e nem mesmo um tiquinho importantes no seu momento de vida – ao mesmo tempo em que – essa minha necessidade de exposição que não é uma necessidade de exposição crua e sem sentido, seja, talvez, a atitude mais corajosa que me vejo ter depois de anos em que me dediquei a realizar velhos sonhos de infância e resgatar amizades, fazer novas e me tornar um ser humano melhor.

Pensar agora, nesse tempo todo, no porquê não te procurei para “dizer/escrever” essas coisas e no porquê de estar fazendo isso neste momento, e na forma de fazer isso, assim tão de repente e, com tanta carga de tanta coisa... mas meu coração bate mais forte a cada digitar e eu sinceramente não gostaria de estar me sentindo assim e por mais que eu ache que não deveria, eu preciso escrever o que escrevo e te mandar esse e-mail ( a sorte é não ser mais de meia-noite, pois senão, não conseguiria fazer as contas do “google”, mesmo sóbria). Engraçado que também não sei mais se o seu e-mail é o mesmo e não tenho o seu telefone para confirmar seu e-mail e não acho que esta carta deva ser enviada pelo correio.

Neste momento, há um furacão dentro de mim que me impede de descolar os dedos do teclado, os olhos da tela e a bunda da cadeira para ir almoçar e sim, estou tirando meu horário de almoço para te escrever, até porque não conseguiria comer nada porque toda a minha fome, neste momento, resume-se a todo esse senão e a tentar falar todas as coisas que não estou conseguindo dizer agora.

Este momento, resume-se a todas as palavras não ditas e sentimentos não sentidos envoltos numa carga de tudo o que já foi dito e vivido e a tudo que quer ser explicado, mas não deve e a tudo que já passou com a correnteza (enchente) e a tudo o que ainda dança no ar tão rarefeito que se permite respirar.

Talvez isso tudo que estou escrevendo não signifique nada, ou signifique muita coisa, ou tudo. Talvez isso tudo seja entendido ou não seja necessário ser (entendido) ou talvez tudo isso não seja necessário se falado e poderia ter sido suprimido como todas as palavras não ditas e os olhares não dados em todos esses anos que ficaram para trás.

Talvez o meu retorno de saturno esteja ocorrendo fora da época, eu esteja “amaluquecendo” ou já seja ou esteja completamente maluca, ou tão sã, que seja por isso que esteja precisando te escrever e contar que sonhei com você esta noite e não sei o por quê.

Sei que isso tudo não necessita de explicação e nem resposta, até porque sou eu que preciso escrever essa coisa toda e talvez isso seja tão confuso ou fora de hora ou o momento pode estar sendo o certo para te escrever/dizer tudo isso ou talvez isso não seja nada.

Peço-te perdão, caso isso tudo te confunda e te mando o meu mais belo sorriso caso entendas tudo, quando, eventualmente, você leia este e-mail, mesmo que talvez nunca tenha certeza que você o leu. Caso leias, saberei, pois um beija-flor, sim, sempre aquele, o nosso beija-flor vai vir aos meus ouvidos e contar. Ele é tão eficiente que até uma foto Polaroid vai me trazer do seu rosto no momento da leitura.

Enfim, sem mais me explicar e ou confundir, despeço-me de antemão te desejando um Feliz Aniversário, mesmo que falte ainda mais de um mês para essa data.

Beijo da sempre,

P.

(*) Isto é uma obra de ficção, mas representa a verdade.

(*)Todos os nomes foram substituidos por letras que podem ser as iniciais verdadeiras de cada participante ou não, para que a identidade de cada indivíduo ridículo que ama genuinamente fosse preservada, pois há muito poucas pessoas assim neste mundo e talvez eles sejam todos de outro planeta e estejam fazendo pesquisa de campo no Brasil

Um comentário:

Gabriele Fidalgo disse...

Caramba! Enquanto lia, um filme também passava na minha mente. E eu só consigo pensar em tirar todas as cartas que tenho empoeiradas na gaveta, para montar um final conclusivo.

Ju, este texto é uma sensibilidade gritante e maravilhosa!