15.12.06

adeus

entenda que nossa hora chegou. nossa hora é agora. aqui. ainda nessa hora. agora, é o fim.ainda agora; agorinha mesmo, o último beijo e o sentar na varanda.

o tempo para outros beijos já passou...

é hora do último cigarro. o meu branco. o seu amarelo. nossa última oportunidade de alguma coisa nossa junta no mesmo lugar. eu sei que você espera que eu seja fraca e te beije novamente. você olha nos meus olhos para que eu, tímida; olhe pra baixo. você quer que eu olhe para baixo pra me distrair e roubar-me um beijo. eu conheço as suas táticas. ainda não esqueci que todo nosso sentimento é mecânico. as coisas sempre aconteceram na mesma ordem, com o mesmo início, meio e fim.

bato as minhas cinzas no cinzeiro. as suas vão cair no chão e a última oportunidade de vermos alguma coisa nossa; cinzas - junta no mesmo lugar. sim, as cinzas de cigarro são coisas, são nossas, são símbolos.faltam apenas cinco minutos. os últimos cinco minutos pra gente sair daqui.

o tempo passa mais rápido agora.eu fumo até chegar no filtro pra disfarçar minha agonia. para dissipar a nuvem da minha vontade de chorar. não vou acender outro cigarro em seguida. imendar uma nicotina na outra. não quero o seu o que houve? tá nervosa?-no meu ouvido novamente. se isso acontecer: sei que vamos começar tudo de novo. mais um ato da peça que estamos cansados de encenar. por isso os últimos minutos são esses. os últimos três minutos são esses.

entenda que eu tô fazendo de tudo pra gente não tirar a roupa, suar, vestir a roupa, se beijar, fumar, tirar a roupa, suar, vestir a roupa, se beijar, tirar a roupa, suar, vestir a roupa, se beijar, brigar, tirar a roupa, suar, vestir a roupa, se beijar...

tô fazendo o possível prá não respirar e sentir o cheiro invisível que abre os poros e deixa a pela com fome. tô fazendo o impossível pra não olhar o contorno da sua boca emoldurada. tô me remoendo pra não pular em cima de você e voltar a ser o "pas-par-tout" do seu quadro. tô me remoendo inteira.

tá doendo pacas. eu te quero. você sabe que eu te quero. por isso, você tocou a minha mão agora. quebrou a regra. colocou minha mão no seu peito para eu sentir a chuva. e a minha vontade é de deitar a cabeça no seu ombro e esperar que você me beije, mas a gente combinou que no último minuto a gente se levanta mudo, vira de costas. saio pela sala e você pela cozinha.

o caminhão fechou as portas.

...60, mississipi, 59, mississpi, 58, mississipi, 57, mississipi ...

pego a bolsa. olho pro chão. deixo uma lágrima no tapete da varanda. não sei se você lembrou de levar os óculos, mas não posso olhar para trás. você sempre esquece os óculos nos lugares. agora não importa mais. não vou precisar ouvir você falando deles. que não sabe onde deixou. não vou ter que ouvir você perguntando se eu lembro onde eles ficaram. não vou precisar procurá-los. seus óculos não importam mais!

nos resta abrir a porta, entrar no elevador, dar tchau pro porteiro. tchau para as lembranças dos cheiros do quarto, pro jeito da sala, pra luz que pisca na cozinha, pro banheiro de criança, pra varanda... - agora é só isso. sair e deixar tudo pra trás.

pra gente o que fica?
lembranças.
apenas lembranças individuais.
lembrança do beijo. dos beijos. dos nossos beijos. de muitos dos nossos beijos. da nossa volúpia. dos arranhões que você sempre deixou nas minhas bochechas.

eu quero que você me beije. vamos esquecer tudo. começar de novo?, mas você já foi. - anestesiar as lembranças. o gosto do seu beijo em minha boca. o gosto...- esquecer o gosto. anestesiar lembranças. acordar só depois do ano que vem...

tenho que comprar cigarros. da marca que eu fumo, no bar do lado não tem. vou no da esquina, mas você vai estar lá na sua segunda cerveja, na mesa do canto, pensando alto e falando sozinho. afogando suas inconsistências em nicotina e álcool fermentado. recapitulando sua rotina a cada gole. você estará lá na mesa do canto. eu sei.

sei também que eu não posso me arriscar a passar perto de você. não posso me arriscar porque eu temo não conseguir dessa vez e a gente combinou. eu não quero correr risco de que a gente comece tudo de novo. comece a sonhar com uma vida solitária a dois. uma vida de tesões robotizados. uma lobotomia de Laranja Mecânica sem Bethoven. um Sex Pistols sem o Sid. um samba sem pandeiro. só pele. sexo. tesão.

a gente na verdade não sabe nada um do outro, só nossas peles se conhecem. nossos cheiros. nossos olhos. a gente não sabe nada um do outro. a gente só sabe que algum imã nos atrai. a gente até começou a se conhecer. acho que se a gente tentasse continuar com isso, teríamos que pelo menos sair pra jantar. rachar a conta. conversar.

não! do jeito que somos, sabemos que não conseguimos conter as faíscas. não podemos mais nada juntos. a razão e a contradição andam algemados na gente. e você acha que os meus erros são propositais. calculados. amigos. só. amigos. dar um tempo. ir embora. acabou. outra vida. amores outros. ritmos novos. outros cheiros. acabou. ir embora. fim.

chego no bar do outro lado da esquina da rua paralela a nossa ex-rua. troco meu filtro branco por um amarelo. você está ao meu lado. o cheiro. eu sinto. o nosso cheiro.
eu minto. respiro. cheiro meu braço. você na minha pele. pele. poros. pêlos. cheiros. texturas. veias. sons. barulhos altos. gritos. gemidos. desmaios. tapas. choro. sem você. solidão. inécia. frigidez. caretice. burocracia. farofa sem ovo. insqueiro sem gás. cama sem colchão. emoção zerada. time code vazio. "kill" sem "fade". vazio. vida. vazia. vida vazia. bandida. ferida sem casca. vinho em copo de plástico. livro sem prefácio. sem você nada. sem você nada. nada sem você. não sou nada sem você. sem você não. não.

Um comentário:

Maristela disse...

Voce já começa a sua despedida.
Eu já começo a sentir sua ida e me preparo.
Quem vai se entregar nessa história espanhola?
Voce tem coragem para viver os minutos e contabiliza cada um deles com racional estudo. Quem tem medo de se entregar ao ADEUS!? vOCE, ELE OU EU? O texto, como sempre, é bem escrito. Cutuco para que venham outros desse inconsciente latino com passagem marcada para os sonhos. Um cigarro aceso o outro apagado. A fumaça continua chamando os aventureiros!
Beijos de amor!